
Não se deixe...
É óbvio que tentarão comprar todo poeta ounarrador de ideologia socialista cuja literaturainflua no panorama do seu tempo; não é menosóbvio que do escritor, e só dele dependerá queisso não aconteça.Em compensação lhe será mais difícil e penosoevitar que seus correligionários e leitores (nemsempre uns são outros) o submetam a toda agama das extorsões sentimentais e políticas paraforçá-lo amavelmente a se meter cada vez maisnas formas públicas e espetaculares do“engajamento”. Chegará um dia em que, mais doque livros, vão lhe cobrar discursos, conferências,assinaturas, cartas abertas, polêmicas, presençaem congressos, políticas.E assim esse justo, delicado equilíbrio que permitecontinuar criando uma obra sólida, sem setransformar no monstro sagrado, no líder exibidonas feiras da história cotidiana, se torna o combatemais duro que o poeta ou o narrador precisa travarpara que seu engajamento prossiga onde tem suarazão de ser, onde brota a sua folhagem.Amarga e necessária moral da história: Não seDeixe comprar, rapaz, mas tampouco vender.
Julio Cortazar
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